quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Despedidas...

Despedir-se do que se gosta é difícil para muita gente. Costumo despedir-me aos poucos, porque há muito aprendi que vida é movimento, nada é eterno e mesmo o que a gente goste, não dura. Assim, quando gosto muito de alguma coisa tento dar-lhe a devida atenção no momento presente em que ainda a tenho. Então, despedir-me? tudo bem.
Despedir-se das pessoas de modo geral é um pouco mais difícil. Então, dou-lhes atenção mas tento não apegar-me muito a elas porque sei que não me pertencem. Até dos amigos, familiares já tive de afastar-me, como muitas pessoas antes de mim já tiveram, movidos por contingências do trabalho, da decisão de recomeçar tudo em outra cidade, enfim... despedir-me, tudo bem.
Despedir-me ou me afastar de alguém ou coisas que gostava como atividades, ou mesmo trabalho que adore, cantinhos especiais onde faço o que me dá prazer, a casa onde se mora, já vai trazendo maior dificuldade, ou diria melhor, requer mais esforço para desprender-se. Contudo, a gente leva para onde for, a possibilidade de recriar a partir da própria criatividade e capacidade de amar que, esta sim, nos pertence. Então, tudo bem também.
 Agora, é diferente quando se trata de despedir do homem que a gente amou, ou por ventura do que deseja amar, a coisa complica muito e, reconheço, quase impossível!
Nossa! como sou lenta nisto! Como demoro a aprender com a raposa. Como é extremamente difícil desenrolar-me, desatar laços que estão adornados por sonhos, esperanças, desejos, sentidos, emoções, sensação de ser especial.
Quem não deseja sentir-se amado? Quem não quer ver um olhar dirigido a si, que traga brilho e  desejo de conhecer e ter mais do que somos? Quem não deseja ver-se reconhecido no olhar do outro? E disto, já foi comprovado, depende a vida! Por mais que nos façamos fortes e espiritualizados, é do que precisamos.
E quando se sonha com isto, ou pior, quando a gente chega mesmo a sentir que é finalmente ou novamente possível, quando a gente quase alcança ou até o faz, a gente tem tanto medo de perder. Porque tem muito a perder! Significa ter consciência de que a partir dali, por um tempo que não sabemos quanto, a vida será ainda mais frágil do que sabíamos que era, porque esvaziou-se do sentido principal. 
Ah, e a vida é tão frágil! E nela estaremos então, tão soltos, sem raízes, sem vontade de voltar para o leito, poder ir para os braços, perdidos que estamos do sonho que nos recarregava de esperança e luz. E tal modo de estarmos não nos trará a sensação de Liberdade, mas apenas da inconsistência, da impermanência no que vale a pena.
Um amigo enviou-me hoje esta frase : - "Todos os dias Deus nos dá um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes. O instante mágico é o momento em que um "SIM" ou um "NÃO" pode mudar toda a nossa existência"  Parece significar que é necessário aproveitar toda a chance que Deus nos dá. 
Sei bem disto. Quando eu era andorinha, não me sentia sozinha e costumava não deixar o trem passar na estação sem que aproveitasse o momento para uma criativa mudança. Entretanto, para mim agora, acima e além disto, a frase significa também que devemos levar em conta as responsabilidades com a gente mesmo, com o que a gente pode ser de melhor. É preciso antes olhar nos olhos do maquinista para ver se ambos queremos partir juntos para um mesmo destino, ainda que desconhecido para nós. Porque a gente já experimentou outros momentos que pareciam raros é que a gente sabe o que quer ou o que não quer mais! Nem tudo que cai na rede é peixe. A gente sabe que não é qualquer chance que nos interessa. Que não é qualquer pessoa que preenche em nós aquele vazio e nos devolve as asas da fé e da liberdade de viver a vida como ser único e divino em sua essência, e que quer viver a felicidade alcançável, respeitando o outro e sendo respeitado por ele. Não é com qualquer outro que a gente sente que está vivo novamente, ou com quem quer viver tudo que ainda for possível. Ah, e como a gente queria que o outro a quem entregamos nossos sonhos, quisesse nos entregar também os deles e pudéssemos voar juntos, além e acima dos trilhos de uma vida pré programada.
Ter de despedir-se deste sonho, porque não há o trem com o maquinista na estação, ou o que lá está não encaixa mais no que queremos construir do nosso destino, é como não poder mais alimentar o pássaro dourado que vinha cantar em meu terraço e alegrar minhas manhãs. É como perder a luz do sol porque é despedir-me do ideal, que estava já entranhado em mim e justificaria tudo o mais. 
Esta despedida sim, me apavora, de um jeito que nada mais o tinha feito e me deixa fora de prumo, meu ritmo entra em desassossego, perco a direção e isto me aflige. Por isto então é algo além de minhas forças, dói só de pensar, machuca, me acovarda, me deixa pequenina, frágil como a adolescente que está sentindo que vai lançar todo o seu orgulho no chão e abrir o maior berreiro! E sabe que ninguém vai escutar, porque não tem sentido que alguém venha lhe salvar, se antes já não tivesse vindo sorrir com ela.
Perder o sonho em que se apoiam outros valores significa, por um tempo que pode ser longo demais, esvaziar-se de sentido, do desejo e da crença em que : “ Por amor, tudo vale a pena, basta querer amar!”  E este é o valor pelo qual caminhei toda a minha vida até agora, sempre com esperança, levantando após cada pequeno tombo, porque nada era grande o suficiente para me fazer cair de vez. Agora estou no chão, embora ainda deseje voar. Não há peneira que tampe o sol que quase me cega mas deixa à luz, a verdade de tudo o que envolve minhas recentes descobertas sobre meus valores e sonhos e crenças.
Talvez o meu momento seja aquele em que tenha de aprender de um jeito que jamais esqueça, que não basta querer amar. Para isto é preciso dois, que queiram olhar juntos para o mesmo destino. Isto me parecia tão romanticamente óbvio, mas é na prática que dói. É um tempo em que tenho aprendido a dor da perda como a morte de alguém. E o tempo de luto é longo. É tempo de respiração suspensa, de medo e necessária coragem para encarar o fato de que não tenho nenhuma garantia,que o único sentimento que conheço é o meu, que é verdadeiro, forte e real e que quanto mais tentava explicar e evitar,mais me entranhava nele. É o tempo de reconhecer que nada mais posso fazer além de me entregar ao meu sentimento, com a humildade que devo a mim mesma, para depois de conhecê-lo, saber o que virá.
Texto e foto: Vera Alvarenga

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Na minha casa mora um anjo...

 Na minha casa mora um anjo
que se contenta com amar.
Já pensei em desfazer-me dela,
você a quer levar?
Gosta de carinho, de conversar
ou se aconchegar em silêncio
nos braços daquele que ama e
unicamente a ele dedicar seus dons.
Não mora ali sòzinha.
No sótão, é sua vizinha
uma mulher já idosa,
uma bruxa, com certeza,
mas do bem, pois cheira a rosa.
Tem certa sabedoria,
porém falta-lhe delicadeza
quando briga com a jovem
que, fiel, ainda crê
que a vida, apesar de tudo,
traz alegria e prazer
a quem quiser dar amor e receber.
Quando a bruxa percebe
que o anjo está feliz
e flutuando mal toca o solo,
para ela torce o nariz,
puxa-lhe as pernas,
quer fincar-lhe os pés no chão,
manda tocar tão alto as trombetas,
que assusta tudo o que voa
e faz o que era bom sumir!
Então, diz sem nenhum rodeio:
- Tu  te contentas com pouco,
isto é notório e sabido,
és tola, vais ferir teu coração.
Se confias ainda numa ilusão
deves estar enfeitiçada!
E o anjo aflito responde :
- "Perdão, estou apaixonada!
e não se engana minha intuição,
a meus olhos, o que vejo,
vem do que viu o meu coração.
Minhas asas trago machucadas,
verdade, já me fizeram sofrer,
porém minha natureza não muda,
temo, mas ainda desejo crer."
  Na minha casa também
  tem uma leoa no quintal.
  Briga por tudo e todos que ama
  e se enfurece contra o mal.
  Na minha casa tem uma mulher terna
  que  às vezes chora, comete erros,
  ainda ama e quer. Esta mulher sabe que
  agora, só a um homem deu o poder,
  deste feitiço de amor, se quiser, desfazer,
  e então,este grão de esperança não irá mais cultivar...

Fotos retiradas do imagens do Google
Versos: Vera Alvarenga
Vídeos: Ingenuidade - Tones Label
             Não precisa - Paula Fernandes
             Amado - Vanessa da Mata


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sobre a morte...

 Quantas lágrimas a gente já chorou diante dela?
 Quantas vezes nosso orgulho se desfez diante dela?
   Ela vem por vezes tão inesperadamente, que a gente nunca sabe o que esperar dela. Algumas vezes é tão estúpida, injusta, outras vem de manso e a gente está tão triste de ver aquele que ama sofrendo que chega a bendizê-la. Sei que ela é necessária, de algum modo para renovação de tudo que há neste mundo. Mas de qualquer modo, é inexplicável sempre para mim. E ela sempre vem, infalível, eficiente, inadiável, cumpre seu papel e se vai, sem direito a apelação, sem emoção, sem nenhum sentido para quem fica. Daquela fonte, não podemos mais beber,daquilo que morre não poderemos mais nutrir a vida que há em nós.
   Quem fica é que cai de joelhos, chora rios, ou esconde tempestades no peito. Quem fica é que sente toda a incoerência de estarmos aqui, ao mesmo tempo que percebe como é necessário refletir no modo em que vive a vida, enquanto aqui estiver. Porque quando ela vier, tudo que conhecemos se acabará e não sabemos, de fato o que virá.
   Sim, eu sei, alguns sabem, ou assim acreditam. Que sorte a deles! Eu ainda não sei, procuro crer, há momentos em que realmente creio e outros em que sinto que é melhor nem pensar a respeito porque não posso aceitá-la, a não ser através de minha fé ou crença, que construa para mim, o que me salvará do medo que tenho dela. Porque ela é implacável e soberana, e tão superior a tantas outras verdades relativas, que iguala a todos nós, de todas as raças, de todas as crenças, de todos os amores. Ela vem e acaba com qualquer dúvida, e mostra que enquanto existirmos, ela existirá, e tá acabado!
Por isto, prefiro nem pensar nela e tenho de desprezá-la. Não me entenda mal, por favor, senhora, reconheço sua soberania sobre tudo e todos que conheço, sobre o reino fincado neste solo de tantas mães gentis, e até por isto, e por reconhecer-me impotente, deve desviar meu olhar de si e seguir em frente com sua opositora, feliz da vida enquanto posso sorrir e esquecer-me de sua existência. Perdoe-me por isto, mas é o que posso fazer... levar comigo em meu pensamento, nas boas lembranças, todos os que a senhora levou para não sei onde. É o que posso fazer, o carinho que lhes posso dar. E minha fé em que um dia vou reencontrá-los de alguma forma, sei lá como e isto nem importa, é o que me consola. E lembrar que temos tido pequenas evidências de que, o que vai consigo não é tudo o que temos, e mesmo o que levará um dia de mim não será tudo o que sou, me traz certa tranquilidade ao coração. Só assim, apesar da dor que fica quando perdemos alguém, só assim podemos imaginar que um dia, humildemente estaremos de alguma forma pisando em sua cabeça com algo que será eterno, mas reconheceremos então, que a senhora fazia parte apenas complementar no mundo de opostos, do que a gente chamava de vida! Quem sabe a Vida tenha sido mais esperta e numa tática do preservar o sempre existir, tenha se dividido em duas e, apenas uma de suas partes veio se colocar neste mundo de dualidades de igual força. Assim é que vida e seu oposto seriam apenas uma ilusão, apenas reflexo de uma vida perene. Como seria isto? Evidentemente não espera que eu lhe responda,não é senhora? Afinal, esta é a parte de mim que também não compreendo, mas que, ao contrário de si, ela não se dá a conhecer e ninguém que eu saiba conhece seus segredos. Por isto, não há o que possa destruí-la, perca as esperanças!

   Que os que perderam seus queridos possam ter alguma tranquilidade no coração e jamais desistir de viver a vida de modo a transformá-la numa benção, enquanto for possível beber desta fonte.
Texto e fotos: Vera Alvarenga   

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Nova versão para a escolha amorosa de Páris..

 Na mitologia, o Julgamento de Páris representa o problema da escolha no amor, 1º grande desafio que a vida nos força a passar, e que representa nossos valores e o tipo de pessoa que queremos ser. Páris escolheu Afrodite seguindo mais seus instintos( de acordo com o livro que li),pois era jovem, e o apelo erótico e amoroso tinham grande peso, e não ponderou sobre a necessidade que teria dos dons que as outras escolhas lhe trariam.
  O mais importante nesta figura mitológica não é se ele cometeu um erro mas, que nos mostra que qualquer escolha que fazemos traz consequências para nosso "Destino". Pensando na escolha de Páris, cheguei à conclusão que, embora já não seja jovem como ele era da primeira vez, minha escolha continuaria a ser fundamentada no que mais acredito que necessito do outro e para mim como pessoa. Para brincar comigo mesma e com meus amigos, fiz uma nova versão de Páris, agora com idade madura..rs...tendo de fazer uma nova escolha entre 3 Deusas. Então é assim...
 - " No tempo em que deuses habitavam o monte Olimpo e os homens ainda apaixonavam-se por deusas, Páris, homem já maduro, foi chamado para escolher uma delas, desta vez já tendo conhecimento, por experiência, que as outras duas tentariam se vingar ( se ele se encontrasse desprevenido! ..rs...).
 A 1ª , numa grande bandeja de ouro, cravada de pedras valiosas, trouxe-lhe e lhe ofertou o Poder e a Influência no Mundo, ainda lhe prometendo deixá-lo ir e vir para usufruir disto, como bem quisesse. Páris encheu-se de júbilo ao imaginar com que prazer tiraria proveito desta oferenda.
A 2ª, numa bandeja igualmente grande de prata, forrada com valiosissimo brocado trazia um livro com inscrições de ouro. Ofertou-lhe o Conhecimento sem limites e garantiu-lhe que ela estaria à altura de sua Inteligência, podendo aconselhar-lhe para conseguir a realização de seus anseios políticos e de justiça, incluindo saber as respostas a todas as suas dúvidas existenciais. Agradou-o enormemente ao intelecto, tal proposta, o que lhe preocupou porque sentiu que seria difícil escolher e ficou apreensivo quanto ao dom da 3ª. Esta porém, o decepcionou de certa forma.
 Trazia uma pequena bandeja com uma taça dourada,onde apenas um diamante brilhava. Contudo, embora não fosse a mais exuberante e, para contrariar a história, nem a mais bela das três, vinha,mesmo assim, com um semblante calmo.
 Páris notou surpreso leve tremor em suas mãos, mas em seu olhar viu orgulho quando ela o dirigia a sua oferenda.
- Não lhe ofereço Poder, nem total Liberdade, pois ainda não os conquistei totalmente. Quanto ao Conhecimento, temo que terei de aprender muito contigo. Porém, não sou modesta! Prometo amar-te como se fosse o meu deus, embora saiba que não é, e oferecer-te a Felicidade numa taça a cada dia, nunca deixando de retribuir cada gesto teu que me surpreenda ou agrade, porque terei enorme prazer em amar-te. Te darei meu colo e irei aconchegar-me no teu. Através do ato de poder te amar, serei feliz e fiel ao próprio Amor, de quem sou cativa e sem o que, nada sou. Eu te farei feliz porque jamais rirei de teus sonhos e serei companheira em teus voos, com a única condição de participares comigo de um ritual uma vez por ano. Nele, nos olharemos nos olhos e, do que virmos dependerá o quanto poderei continuar a te fazer feliz.
Dizendo isto, afastou-se emocionada.
  Páris estranhou o fato da deusa, exatamente a que falava de amor, trazer velada em sua oferta certas condições. Desconfiou de sua idade, que não aparentava a beleza eterna das outras deusas. Virou-se e ao pé do ouvido de seu conselheiro Saturno, o também chamado Tempo, perguntou:
- Não achas estranho? Não te soa meio falso falar de amor e desafiar-me a merecê-lo?
- Tem razão, Páris. Quero alertá-lo de que, neste ritual a cada ano, notarás que ela estará envelhecendo um pouquinho e talvez também precise de ti.Contudo, posso garantir que não se trata de falsidade, mas de certa "condição" desta deusa.
- Conta-me, sem demora, então! Que segredo esconde esta deusa?
- Seu segredo e seu pecado foi uma vez ter deixado de amar, e então, renunciou a sua condição divina e tornou-se, para sempre, quase totalmente humana, com exceção dos momentos em que puder estar amando.

Foto e Crônica : Vera Alvarenga.


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Nem paraíso,nem inferno...

 - Hei! Você me deu choque!
 - Desculpe.Preciso fazer escultura, andar com pé no chão, descarregar energia. Estou como aquele pato, cabeça nas nuvens.Não comente com ninguém, tá?
- Amiga, ele está com a cabeça...
- Pois é, nem o reflexo das nuvens é real, tá vendo? Bem assim que me sinto.
- Huummm...Ontem li algo engraçado sobre estar apaixonada. Serviria pra você. Este mal que fica entre o peito e o coração, que parece o ar que a gente inspirou e fica lá, sem achar o caminho, desconcertado, fora de ritmo...disseram que, se ninguém mexer, não tendo futuro, um dia passa. Então, não se preocupe.
- É. Este "mal" que sinto, me traz leveza e desconforto, pediria realização se não tivesse medo que acabasse como tudo que se realiza.
- Realização... pode não ocorrer como se imaginou.
- Eu sei, mas isto é sentimento, pede expressão. Precisa de um container para tanto conteúdo - gostar, desejar tocar, querer existir, compaixão, ternura. Compaixão, li outro dia, é amor, sabia?
- Bem, tire proveito então, e sonhe. Sonhar não é pecado, é possível, você sempre dizia isto.
- Você tá brincando, né? Isto era no seu tempo, desculpe. Hoje uma mulher não fica sonhando por algo que não passa de um reflexo, quando nem sabe se contem algo real.Se você soubesse as coisas tolas que imagino.E é bem porque não tem limites pra se voar, que frustra e estou nesta enrascada. A gente se pega sorrindo. Sabe como é? Já te contei. Sem pé nem cabeça. É como ver revista de culinária, com a foto de um Petit Gateau derretendo e quando a gente começa a antever o prazer, aí acorda e percebe  que estamos aqui nesta pista, caminhando para queimar calorias. Ninguém merece!
- Você é engraçada. Ainda bem que é jovem e pode rir de si mesma.
- Se não estou no inferno, também não é nenhum paraíso. Nem de um lado, nem de outro.O que sinto é..é..
- Consumissão. Nossa, fui lembrar desta palavra! Desassossego, é melhor. É isto que sente?
- Sabe? Em alguns casos, concordo com você, é melhor a realidade nua e crua. Afinal, precisaria realidade pra gente poder sentar no colo...
-Você anda imaginando isto, é??  hehehe...
- Te falei! Preciso algo que contenha tudo isto. Você já se sentiu assim, não è? É sério, o que faço?
- Não. Nunca me senti assim, eu acho. Quando me apaixonei, ele já estava muito apaixonado, tudo se realizava muito no concreto. Eu não acreditava em amor à primeira vista, demorei mais pra gostar, mas depois, virou uma longa história.
- Você é  toda certinha...
- Nem tenho mais idade para ser diferente,não é? Não saberia como lidar com uma paixão não correspondida.
- Você diz isto porque tem alguém que sempre foi muito concreto a lhe esperar, alguém que possui todas as certezas. Tem sorte,então.
- Acho que sim. No seu lugar,tomaria um banho frio, ou me afogaria..ahahah..Não leve a mal. Estou só brincando, desculpe. Mas tenho saudades da intensidade de tudo o que ocorre quando a paixão vai se concretizando, se transformando em amor possível, real... Durou tantos anos. Paixão e amor podem se combinar, podia durar, mas não sem investimento,claro.
-Ahah! Então você é contida? Tem seus segredos.Tá, não leve a mal, também tô só brincando. Ainda bem que tenho você com quem conversar.Faz bem poder brincar. Pelo menos a gente pode rir de mim, juntas. Isto refresca.
- Falar nisto, vamos tomar um suco?
- Quem sabe um enorme e gelado Milkshake?
- Você não tem jeito.

Fotos e Crônica: Vera Alvarenga
vídeo e música do youtube.

domingo, 23 de outubro de 2011

Apaixonar-se? outra vez?

Estava lendo um texto sobre o apaixonar-se que fala de um modo divertido sobre as agruras por que passam os apaixonados.
Então me lembrei que já me apaixonei poucas vezes, na maioria, reapaixonei-me".
Pensava assim: Se conhecesse outro homem e me apaixonasse,  desejaria dar ao relacionamento todas as chances, teria paciência, valorizaria nele só as coisas que me agradassem, não é?. Então pensava, se a vida é um jogo, é preciso aprender a jogar com as cartas que ela nos dá. Alguém me dissera que a vida era um jogo. Não queria jogar para blefar, nem guardar cartas na manga. Pensava em "jogo da vida" para entendê-la como algo positivo que nos desafiava, que trazia surpresas, tinha regras, mas podia dar prazer a dois parceiros que jogassem com honestidade,pelo prazer de estarem juntos para se divertir, apesar de tudo. Eram, na verdade, dois parceiros a jogar unidos, o jogo que a vida lhes apresentasse! Não deveria ser um contra o outro. Deste modo, quando a rotina nos distanciava eu tentava embaralhar as cartas, trocar dados viciados, usar a criatividade.Olhava para aquele que estava comigo há anos e me perguntava o que eu gostava mais nele, o que nele me atrairia, e o que eu podia fazer para virar o jogo a nosso favor. Assim, nos seduzíamos, e não era difícil para mim, sentir-me novamente apaixonada, porque era bom, a não ser pelo fato de que demonstrava minha insegurança - tudo ficava tão bom que eu temia que acabasse. Portanto, outrora, nunca me arrependi deste sentimento. Talvez muitos casais façam o mesmo. De vez em quando tudo se repetia como num disco quebrado. Eu devia estar fazendo algo errado, embora resultasse certo. Pois apesar de a cada vez colhermos recompensas, parecia que era eu que devia proporcionar as condições para que tudo ficasse azul e em paz, como é o céu dos apaixonados.
Com o tempo, surpreendentemente, me reapaixonar ficou mais difícil, embora antes não fosse sacrifício nenhum, porque gostava de estar apaixonada, pelo mesmo homem. 
Estar apaixonada era desarmar-se, entregar-se, uma coisa pra lá de boa! E era fazer sexo, com frescor e juventude algumas vezes por semana. Bom demais, para ambos!
Contudo, falar em apaixonar-se já numa idade em que a gente está um pouco cansada de só receber quando agrada,  e começa a querer receber mais, numa idade em que a gente
se olha no espelho e não vê mais uma mulher cuja aparência seja coerente com o que ainda sente, numa idade em que o espírito ainda é mais alegre do que o rosto consegue demonstrar, apaixonar-se, entregar-se a este sentimento que nos lança no escuro já que estamos meio "cegos" como dizem alguns, apaixonar-se com romantismo, sem a imediata retribuição, pode nos fazer fugir ou tremer na base. É uma faca de dois gumes que mais se pareceria com uma ferradura, com as duas pontas voltadas para o ser apaixonado. Nesta idade, apaixonar-se é sofrer é arriscar-se demais, por isto muitos ficam anestesiados. 
E é bem nesta idade que a sociedade mais nos cobra que tenhamos maturidade para sabermos que nesta vida, "não há certezas"! Bobagem! A sabedoria da maturidade não nos garante maior segurança, pois o sentimento de apaixonar-se é o mesmo de quando estávamos mais jovens, mas o corpo então, podia fazer movimentos livres, soltos e mais sedutores, e não tínhamos medo! O nosso espírito quer, mas o corpo não é o mesmo. Ah, dirão alguns, mas no amor...
Sim, respondo eu, no AMOR, o corpo não importaria tanto! 
Mas e quando é preciso apaixonar-se ou reapaixonar-se primeiro? Afinal ele, eu, estaremos envelhecendo e sabemos, é preciso outro tipo de sedução, confiança. Penso que o desejo é movido pela alegria de estar junto, não mais por um corpo escultural ou sedutor.
Pois é, na maturidade é preciso coragem e decisão! Decidir não desperdiçar a vida, decidir assumir comprometimento, decidir resgatar ou valorizar a amizade e o carinho que começarão a ter uma importância infinitamente maior. Alguns homens se afastam, outros ficam amargos ou se fecham devido a insegurança que sentem quanto às mudanças no funcionamento de seu próprio corpo. Embora tudo pareça culpa da mulher, e se faça até piadas a este respeito, o que acho de extremo mau gosto, na maior parte das vezes, é ela que precisa sublimar desejos. Sei que alguns homens, sem precisarem se iludir,  mantem um relacionamento de amor e sexual satisfatório mesmo após os 65 anos de idade, mas certamente são os que tem um relacionamento no qual AMBOS ainda sentem a alegria de desejar proporcionar ao outro e a si, momentos de brincadeira e isto só pode refletir o prazer que sintam em viver juntos - e assim, comemoram a vida. Muitas vezes, mesmo quando o ato sexual não seja mais possível para o homem, como antes, se houver alegria no coração de AMBOS, corpo e  mente encontrarão uma maneira criativa de enfrentar mais este desafio.Então estarão juntos com uma qualidade de vida que transparecerá no brilho do olhar, apesar de envelhecerem juntos. 
Se apaixonar-se é loucura, na idade madura é ainda pior! não é fácil. Nem para um homem, nem para uma mulher, a menos que este apaixonar-se leve junto a alegria, e à descoberta do amor, carinho e grande amizade, pois é disto que precisamos ainda mais do que da paixão, após os sessenta e poucos. Embora apaixonar-se após os sessenta nos encha de uma vida que pensávamos não ter mais, e quando correspondido possa levar ao amor, é um sentimento que dá medo, eu acho, porque pensamos que não temos mais tempo de não ser correspondidos, não queremos mais ser manipulados justamente quando estamos talvez mais prontos e maduros para o amor, que voltará a ser leve, à sua própria maneira. 
O texto do qual falei no início termina dizendo que a loucura da paixão passa e ..."a alma que parecia apartada de tudo retornará dando vida ao corpo e então, você poderá compreender tudo isso e esperar que um amor de verdade chegue".
Pois eu não sei do que se trata esta ausência de minha alma, que há tempo demais está não sei onde! Se é medo ou o que. Queria minha alma de volta pra mim, para viver uma realidade que eu pudesse tocar, carinhar, reconhecer e por ela ser reconhecida, com a equivalente medida de carinho que dou. Compreendo muito bem agora, quem deseje fugir disto( como comenta a Sissy). rs....
Apaixonar-se é mesmo loucura, não é tão bom assim.rs... Amar sim, pois amar é atitude responsável e individual, mas o que resulta do verbo, o amor, é algo construído a dois, lenta e cuidadosamente. Amar é ser chamado porque o outro quer nossa companhia para as coisas boas também, porque o outro nos quer em sua vida e sente que nos ter é um tipo de presente, é retribuir este sentir naturalmente, é velar o sono do outro porque ele é jóia rara e delicada. Penso que é assim que se cuida de quem se ama. Quero voltar a sentir, calma e seguramente de novo, com todas as rotinas deliciosas e bem vindas, um apaixonamento que se descubra amor! Na minha vida, me reapaixonei tantas vezes. Onde estará minha alma agora? Minha alma amorosa e crente era o melhor de mim e sinto falta dela!
Por que agora é mais difícil? Por que agora somos mais condescendentes com tantas coisas e mais exigentes com poucas outras? rs... Por que deixamos nos escapar pelos dedos, como areia, o prazer de viver que ainda podemos sentir? Vejo o tempo e a areia escorrerem na ampulheta num ritmo diferente do meu, que desejo e sigo com mais calma, do que a pressa que ele teima em mostrar. Quero agarrar minha chance, mas tenho medo. Com a idade, enxergamos menos, mas sentimos mais?
Como avisar ao espírito que só ele não tem idade e que só para ele tudo é possível? Como acalmá-lo e dizer-lhe que tudo está bem, apesar das coisas que passamos a conhecer? Talvez por isto o "velho" volte a ser inocente, porque se desprende do que lhe era importante e muda seus valores,mas eu queria poder fazer isto por opção consciente,por ser feliz de fato, não apenas porque a vida é mesmo assim. Há velhos que apenas carregam a vida ou desistem e outros que flutuam em sua leveza!

Por isto o ser humano tem de sonhar. Se não puder sentir-se especial por qualquer motivo verdadeiro que alguém compartilhe consigo, ele acaba por inventar um, se não puder sentir-se  capaz de ainda viver um sonho, a vida a partir dos 60 seria como minha madrinha recomendava para minha mãe: 
" Vá pegar no terço e rezar!"..rs......

Texto: Vera Alvarenga
Fotos retiradas do Google
Texto citado da amiga Marcela no link:Paixão é navegar em barco de papel. 

domingo, 16 de outubro de 2011

Queria ser brisa para beijar-te...

    Hoje eu queria poder ser como o vento de primavera que leva consigo o perfume das flores, e passando por teu rosto, o faria levantar-se. Te distrairias, por curiosidade, do que te mantinha dentro do espaço cujos portões de ferro são pesados demais para minhas mãos abrirem e sairias para sentir o vento. E ele seria, em teu rosto, o meu beijo.
  Feliz e forte, como ventania, aos teus olhos incrédulos, varreria folhas secas e rugosas que o inverno teima em mostrar-te para te fazer sofrer. Num segundo me tornaria cálida e terna como brisa de verão para aquecer teu coração. Como brisa fresca, traria leve frescor para nossos corpos e libertaria nosso espírito.
   Eu me sentiria bela e te faria belo, e juntos, sem pressa dançaríamos a nossa dança. E eu iria envolver-te inteira, varrer do teu tempo e do meu, tudo o que fosse mau. E em nós e nossas lembranças traríamos todo amor que aprendemos e já pudemos sentir por alguém, o mesmo amor que já nos alimentou, ele que nos alimentaria ainda e  através de nós e de outros, alimentará o mundo, sempre e sempre.
   E antes que tivesses medo e te fechasses pra mim, ou que tua face se tornasse de novo séria e dura, ou triste, e que em sua fronte se fizessem as marcas de um olhar novamente descrente e distante, e que por isto minha alegria se dissolvesse, eu me afastaria de ti. Porque tenho medo de ficar novamente do lado de fora de qualquer fortaleza, porque sei que não sou perfeição nem solução, mas apenas amor que precisa se dar e receber, então, por este meu próprio medo e minha fraqueza, eu me afastaria, mesmo que longe de ti me sentisse morrer de um amor que não se fez por inteiro.
   E, no fundo do meu coração, prisioneira, esperaria que um dia tua mão viesse me buscar...
Texto: Vera Alvarenga
Fotos: retiradas do Google images-não estava citada a autoria.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Onde está ela?

   Me sinto doente. Disfarço para que não tenha de explicar o que sinto e porque. Talvez eu esteja como que suspensa no intervalo antes da cena final e perceba que esqueci as falas! Não sei se o que viria a seguir era o momento da virada onde a vida sairia vitoriosa, ou se tudo acaba com a morte.
  Sei que perdi parte de mim, talvez para sempre. A que foi, perdeu-se na estrada,não foi encontrada nem encontrou por si, o caminho de volta. Foi pura e ingenuamente de encontro ao desconhecido como sacrifício feito pela virgem que acreditava que seu gesto de amor salvaria os iguais a ela. Timidamente, levou consigo a alegria que também me animava. Mesmo ingenuamente, ela roubou-me algo de valor.
   Eu fiquei. Sinto sua falta. Esperei a cada dia que ela, encontrando enfim seu destino, viesse me buscar. Eu fiquei vazia dos sentimentos que ela levou consigo e,  fiel a ela, fui me distanciando mais e mais do que me cerca. Eu, que costumava estar inteira em cada lugar, estou em todos os lugares e já não estou mais em lugar algum. Porque eu fiquei, mesmo estando com ela. Por vezes me sinto oca, como se ela houvesse levado o que me pertence. E sem ele, o ser que sou já não é nada. Ausenta-se para fingir que é. A cada noite, embora sabendo que ela perdeu-se, chamo-a de volta. A cada manhã acordo pensando que ela voltou, só para perceber ao longo do dia, que ainda não estou plena.
  Então, na frente do espelho, jogo água em meu rosto para acordar-me, e com o toque frio e real me faço o mais consciente que possa de mim mesma, e do mundo que me cerca.
  - Deixa de ser egocêntrica! Olha para o lado, vê como antes, que outros sofrem mais que tu! mas cuidado, não te faças tão consciente que acabes por dirigir o olhar para si mesma, pois que então verás que tua tristeza é porque não tens mais teu coração...
Texto: Vera Alvarenga
foto: retirada do google images.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Dia das crianças...

Amanhã é dia das Crianças. Estava lembrando de quando era uma delas. Tinha 2 irmãos mais velhos que podiam brincar na rua, eu não, pois era menina e morávamos em São Paulo! Meu pai trabalhava no Hospital das Clínicas, um dos responsáveis pelo Setor de Custos daquela imensidão. Pessoa simples, carinhosa, humanitária, ensinou-me que um sorriso sincero era algo bom a oferecer ao cumprimentar as pessoas, naquele ambiente onde elas estavam preocupadas ou com dor. Sua ambição parecia se resumir ao viver em paz e tranqüilidade, poder escrever suas poesias e pescar, de vez em quando. Além disto, às vezes pegava o carro e no domingo dizia: - Vamos até o alto da serra, comer pão de semolina com mortadela...e lá íamos nós. Adorava o miolo daquela enorme fatia de pão - era uma delícia.
Minha mãe, também trabalhava fora e embora não muito afeita a carinhos físicos, era humanitária, ajudava pessoas que chegavam para atendimento no INPS,vindas de outras cidades, sem dinheiro para um lanche, às vezes. Animada, ambiciosa embora não em exagero, social, agitada, não esquecia de presentear aniversariantes, dizendo que uma data especial não podia passar em branco. Ensinou-me, com seu exemplo, sobre a disciplina, a força de vontade e persistência. Dizia que a ambição é necessária para um futuro mais seguro e que a vaidade era fundamental...neste último quesito eu fui uma péssima aluna, mas aprendi por observá-la, a importância nos apresentarmos bem socialmente ou no trabalho. Ambos tinham “caráter”,princípios dignos e eram honestos. Tive sorte em ter pais como eles.
  Fui feliz na infância. Nenhum grande trauma, nenhum drama. O que me faltou? Hummm... bicicleta, piano, oportunidade de estudar ballet. Dizem que eu dançava bem, desde pequenina. Tais faltas materiais fizeram parte do aprender a lidar com frustrações, mas, na verdade, não me lembro de frustrar-me por muito tempo, inventava outra coisa pra fazer, como tocar violão, e com ele, compunha minhas músicas. Sentia-me um pouco só, mas com isto me habituei a ficar bem comigo mesma. Quando tinha quase 8 anos nasceu minha irmã, para mim uma boneca viva, e eu adorava ajudar a empregada a tomar conta dela na ausência de minha mãe durante o tempo que ficava no trabalho. O fato de viver numa casa com quintal onde  permanecia horas sozinha, fez com que eu desenvolvesse  a capacidade de imaginar e criar, e também a de concentrar-me e entrar fundo no que estava fazendo.
Amadureci cedo, aos 10 anos sabia fazer bolo, cuidar de afazeres na casa e fiquei “mocinha”. A criança (contando com o periodo da adolescência inclusive) que ainda vive em mim, é crédula, ingênua, tranquila, feliz, criativa, “excessivamente” comportada, confiante em si em termos..rs.. e romântica. Foi no colégio das freiras quando criança, que recebi minhas primeiras asas de anjo... Hoje não sou mais anjo, mas guardo as asas e vôo com elas, sempre que posso por alguns minutos, para lugares onde recarrego baterias...rs..
  Tudo foram flores?? Não. Honestamente, gostaria que meu pai não tivesse se separado de minha mãe, que tivessem sido felizes juntos até o fim, sentimos muito a falta dele e ele a nossa. E, sobre minha mãe, gostaria que tivesse sido mais incentivadora, que fosse menos crítica e mais carinhosa. Contudo, apesar do amor que sinto por meus filhos, sei que não terei preenchido todas as suas expectativas. Somos todos humanos, temos falhas e necessidades. Penso que as pessoas de minha geração desejam que suas crianças brinquem mais e vivam por maior tempo a sua infância. Acho bom. Contudo,o que penso fazer falta realmente, é um olhar atento e carinhoso para o que a criança é e sente...hoje  me assusta um pouco o excesso de estímulos, brincadeiras e brinquedos, pois noto que isto não lhes permite desenvolver a capacidade de criar a partir do pouco, ou a se concentrar pelo menos até o final de uma brincadeira. Então, o desafio hoje, acho que é o concentrar-se apesar do excesso e filtrar o que é bom, do muito que chega. A criança de hoje talvez tenha mais trabalho que nós...
A criança que existe em mim saúda a criança que existe em cada um de vocês. 

sábado, 8 de outubro de 2011

Vim apenas lhe abraçar...

 Ela sabia que ele estava lá,em algum lugar,mas há algum tempo não recebia notícias. E naquele dia, quando ela já ia partir,com os ventos da primavera, as recebeu. Vieram nas asas do pássaro que entrou pela janela. Seu coração encheu-se de felicidade e o sorriso apoderou-se de todo o semblante.
  Mas o pássaro estava machucado, debateu-se  um pouco antes de sair em seu voo novamente silencioso e cansado. A saudade, que antes tinha sido sua companheira algoz e transformara-se há pouco em oposta alegria, logo vestiu-se com a palavra fria que não consegue descrever os sentimentos, como um abraço ou o olhar melhor fariam. E, como estátua, agora congelara e continha dentro de si, o impulso da vida, pois diante do oposto que lhe foi revelado,era o que lhe cabia. Nada podia fazer para evitar que ele sofresse. Não tinha o poder de protegê-lo, nem ele viera para ser protegido. Encontravam-se como sempre, por algum motivo que não ficava claro, além do querer bem, apesar de tudo e da distância. Quantas lágrimas ele tinha chorado outra vez e ela não pode enxugar? Era assim a vida.
 Mais uma vez, ela o abraçou ternamente. Isto, às vezes, bastava. Contudo, neste período das chuvas de primavera, gostaria de tomá-lo em seus braços, curá-lo de seu ferimento, ou quem sabe, ambos se curariam do que quer que ali houvesse que os machucava de maneiras distintas. Sim, ela também queria ser tomada nos braços, mas não por um momento. Apesar de saber do caráter efêmero de tudo, o que a curaria tinha de estar vestido da certeza do que é verdadeiro por estar ali para se realizar em gestos e olhar...como se fosse para sempre. Só o despojamento das vaidades e a disposição para viver o eterno, seriam capazes de curar os espíritos feridos pela morte, em suas diferentes roupagens. Era sonho. Talvez se encontrassem apenas para darem-se este abraço dos que sabem que não serão julgados.
Antes de sair, ele pediu-lhe um sorriso para lembrar-lhe de que a vida continua... e ela, ao fazê-lo pensou em como isto era difícil quando aquele que amava inconsistentemente do modo como era possível, sofria. Assim, ela aprendeu na carne, porque alguns amam e apesar de tudo, não conseguem proteger o outro. Era um desafio mais uma vez sorrir de encantamento, quando o que parecia realidade era oposto ao que parecia sonho. Por isto ela sabia que era impossível para o ser humano deixar de sonhar. Por isto ela permitia que sonho e realidade se confundissem, por vezes...
Fotos e texto: Vera Alvarenga

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Amanhã, será um dia único!

 Devíamos ter coragem de proteger o que é mais delicado em nossa alma e não envelhece.
 Como a pequena fêmea do beija-flor não desiste de experimentar o doce da vida, apesar de ser como é, a cada dia percebo com mais calma e mais claramente que preciso investir em meu sonho.
 - "Ah! então continuas a sonhar, confias, e deixas para um futuro. És incorrigível!"
 - Não, meu sonho não é mais para o futuro, para uma viagem a Paris, Áustria, Holanda, ou para resgatar a felicidade que o relacionamento deixou sempre para colher num dia, talvez. Ou para aquela viagem de navio que um dia, alguém que eu amava muito, para minha surpresa me disse que faria sem mim, porque lhe disseram que viagens assim não eram boas para pessoas casadas. E o som daquilo feriu meus ouvidos como nota aguda e desafinada para a qual me ensurdeci, porque não soube lidar com a decepção que causou aquela verdade que eu não quis compreender - a de que não era preciso que ele me protegesse contra algo que desejava para si, de tão bom que era. Meu sonho é o de ter renovada minha fé em que eu mereço ser feliz e receber de quem diz que me ama, as melhores coisas, só até logo mais. E logo mais está muito próximo, chega com a manhã do dia seguinte.
Como próxima está a morte, portanto, o futuro, não me ilude mais.
- "E o dia seguinte não seria o mesmo de um futuro distante?"
- Não. Porque começará pela manhã, logo após esta noite, será meu primeiro dia seguinte. E eu  quero dele, grande parte para meu sonho. Quero talvez o dia todo de cada dia seguinte. Quero-o único, porque quero viver um dia de cada vez, no ritmo que me for possível, às vezes com calma, outras com intensidade. E nele, quero criar e dar minha atenção a um único momento de paz e felicidade que talvez dure o dia todo ou o pouco tempo que tem para durar. Que este dia me dê a certeza de que valeu a pena tê-lo vivido e de que sou única. Reconhecer-me deste modo, será uma experiência nova. Quero buscar com o olhar um instante de beleza, seja num gesto ou onde a possa encontrar. Disto, não posso abrir mão. Foi preciso me decidir. Não sei exatamente como farei para despojar-me das crenças que não eram minhas, mas vou começar amanhã, porque cansei de dar atenção ao que me faz triste. Muitas vezes, o que vemos na atitude do outro, não é algo dirigido pessoalmente apenas a nós, mas a maneira como vê o mundo, são suas crenças, não as quero todas para mim. É trabalho árduo este, pois desde pequenos somos fortemente influenciados pelos gestos e olhares dos que são fundamentais em nossa vida. O primeiro passo, penso que é distinguir e então filtrar, a bem de nossa felicidade, o que não serve para nós.
- Quero poder sorrir por um momento, mesmo sozinha. Melhor ainda, como é de minha natureza, será dividir esta alegria com quem deseje o mesmo que eu. Imprescindível, contudo, é reconhecer quando algo não está a nosso alcance, nem depende do que somos e então, resolver a questão como fez a inteligente raposa, que se afastou pensando que aquelas uvas estavam verdes e, em seguida foi procurar alimento de outra forma. E assim, de qualquer maneira, que a alegria ou riso de cada dia lave minha alma, porque sei agora com certeza que meu espírito, como os demais, de fato, não envelhece. Já percebeu isto?
 - Quero um instante de ternura, neste meu único dia seguinte, que começará logo mais, depois desta noite. E esta ternura me fará lembrar com orgulho que não sou rocha nem vegetal, mas mulher, e só comparável à delicadeza de uma flor, mesmo apesar de tudo e dos limites que possa ter, aos seus olhos ou aos meus. Eu quase me esqueci disto!
  - E no fim deste dia único, mesmo que tenha sido difícil,quero saber que teve seus momentos especiais e que nele,  fiz as melhores escolhas que podia ter feito pelo sonho de não desperdiçar a benção da minha vida.
 - "Isto não é muito diferente do que você pensava antes".
 - Sim, mas agora, tenho mais urgência e certeza, ao mesmo tempo que sou mais livre para assumir a responsabilidade por minha crença. Percebo que há muito, conquistei este direito. Só quero ter disciplina para não me esquecer disto.Finalmente, antes de dormir, seria bom evitar sentir pena porque não tive ajuda para colher aquelas uvas tão altas ou pensar que o dia que passou poderia ter sido melhor, pois deste modo estarei eternizando a sombra que faz em mim, a impossibilidade do que provavelmente nunca será. Há pomares que já conheço, e sei o que é possível para nós que ali estamos. Outros, que ainda não fui visitar. Engraçado pensar que, em questão de felicidade, talvez devamos ser espertos como a raposa e não apegados como um cãozinho doméstico. Apesar da importância de reconhecer o que está fora de alcance, ao fechar meus olhos só por esta noite ou para sempre, quero ter a certeza de que alcancei o queria do possível, neste meu único dia, e isto me fez acreditar que na manhã do dia seguinte, valeria a pena acordar disposta a experimentar mais um dia único, onde talvez me seja dado viver novos momentos especiais. E por eles, sorrir ou fazer sorrir.
 - Você vem comigo? Vamos tentar um único dia, único e especial, de cada vez?
Texto e fotos: Vera alvarenga  

sábado, 24 de setembro de 2011

Um pequeno ritual mágico...


 É possível mudar uma rotina com a qual a gente não se sinta bem. De algum modo a gente pode mudar o que é possível mudar.
Não é como nadar contra a maré, não desgasta, ao contrário, suaviza.
Gosto de poder criar momentos diferentes dentro da rotina, não para desafiar estruturas. Não ligo a mínima pra esta história de desafiar padrões estabelecidos, mesmo porque, rotinas me deixam segura. Mas se faço isto é porque me dá prazer poder sentir-me relativamente livre para criar e, fazer diferente.Nem sempre é contestar, mas apreciar algo mais agradável.
 Assim, em minha casa hoje, uma 2ª feira não começa mais como aquele dia chato...não temos ninguém a trabalhar em casa neste dia, assim, meu marido não precisa levantar cedo para abrir a porta para a funcionária que não tocará a campainha pela manhã...rs....
Mesmo sendo 2ª feira, nós a tornamos mais agradável, como é uma manhã de feriado no meio da semana. Dá para acordar de manhã, com o canto dos passarinhos e, ao invés de levantar, fazer ainda um momento de preguiça...colocar a cabeça no ombro daquele que dorme em paz a seu lado. Dá pra sonhar acordada, sonhos de paz.
 Depois de alguns momentos,virar-se,puxar o braço preguiçoso e deixar-se abraçar, porque receber o que se deu é sempre bom. Em pouco tempo, torna-se um ritual - e rituais mágicos são sempre bem vindos até mesmo para os mais resistentes. Tudo para mudar na memória e aliviar o peso que antes tinha uma 2ª feira rançosa, ou que tenha qualquer rotina que nos desgasta sem que seja imprescindível!
 São estas pequenas coisas que a gente pode mudar, sem que dependa apenas do outro.Tudo pra começar o dia com bom humor e ouvir com mais prazer o canto dos passarinhos.
Tudo para proporcionar pequenos momentos de gostosura para a vida, e que podem se tornar rituais que chamo de mágicos, porque não são os necessários, mas fazem uma pequena e doce diferença, que os sensíveis notarão e os que não o forem, assim mesmo aproveitarão e sentirão seus efeitos, por mais que não queiram reconhecê-los..rs.....
 Isto de cuidar do ninho e proporcionar gostosuras, aconchego e suavidade, é mesmo coisa que mulher gosta de fazer e oferecer como um presente, não é mesmo? Mas, tanto homens como mulheres, podem criar seus rituais mágicos para uma vida melhor.
Texto e fotos: Vera Alvarenga

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Redemoinho domingo na praça

Domingo estávamos calmamente sentados no Parque Campolim. Eu lia um livro, depois de uma agradável conversa com Kátia, alguém que gostei muito de conhecer quando, de repente, uma ventania muito forte passou ali onde estávamos, trazendo poeira e muitas folhas.
Passou por nós, aquilo que parecia um redemoinho, e seguiu em linha reta levantando mais poeira, surpreendendo as pessoas e ao chegar ao lago, formando um pequeno chafariz de água dançante.

 Tudo muito rápido...tão rápido que logo passou e se transformou apenas num acontecimento curioso.
Não fez estragos, mas chamou a atenção daqueles que foram pegos de surpresa, em seu caminho. Levantou poeira, fez um pouco de sujeira.Só isto!
Tudo logo voltou ao normal. Que bom!

Então, me lembrei  de uma outra vez que eu estava no caminho de um tornado, em Florianópolis,ainda bem que protegida dentro de casa, porque o estrago foi maior - vasos e telhas quebradas, muito barulho, um som estranho que parecia de turbinas, o limoeiro do quintal tombado com as raizes à mostra!
E para muitos, em diferentes locais deste nosso mundo, um tornado pode ser um desastre.
Por vezes, algo semelhante acontece em nossas vidas. De repente, tudo que estava bem, parece virar de pernas para o ar como se um tornado  passasse sobre nós. Demora mais para organizarmos tudo novamente. É preciso então, coragem, determinação e confiar em que a vida, apesar de imprevisível, apesar de nos assustar e expor nossa fragilidade, vale a pena ser vivida. Muitas vezes, é a partir destes movimentos inesperados, que nos desestabilizam, tiram nossas coisas de lugar, mexem com uma rotina que antes era segura e nos forçam a reagir em busca de uma nova relativa segurança, que passamos a valorizar outras coisas e exigir menos de nós mesmos. Os que davam atenção só a si, podem passar a levar o outro em consideração, e o contrário também acontece, mas nada é regra. É comum que, logo após a poeira baixar, a gente tenha outra visão sobre o mundo que nos cerca e, por vezes, sobre como queremos estar nele enquanto pudermos escolher. Pode acontecer de precisarmos descobrir como andar por outros caminhos uma vez que os antigos já não mais existam. Mesmo que já valorizássemos o que tínhamos, após algo imprevisto assim, que balança ou desarruma nossa conhecida estrutura e, por isto nos desequilibra de certa maneira, a maioria de nós se empenhará de forma diferente diante do que possa trazer momentos de felicidade. De qualquer modo, por algum tempo antes de nos habituarmos a nova rotina e voltarmos a ser como éramos, o olhar sobre o mundo não é mais o mesmo. Este é um momento que, para muitos, pode significar o momento " da virada".
Alguns de nós experimentam perdas irreparáveis, outros levarão consigo uma saudade que ficará para sempre, outros precisarão de alguma ajuda para perceberem que a vida, enquanto está lá como a conhecemos, pulsa ainda mais forte quando pressente sua própria fragilidade.
Ao olharmos para o que ficou após um tornado, não veremos culpados, apenas teremos de juntar forças para o trabalho que temos pela frente e decidir como o faremos.
Que possamos ser leves companheiros para aqueles que, ao nosso lado, precisem enfrentar tais redemoinhos e a tarefa de se reorganizarem.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Sapatos vermelhos na vitrine

Ela, vinha com passos felizes e seguros, movida pela certeza de que teriam tanto a se dizer e tamanho prazer com o encontro, que tudo correria naturalmente, tudo seria bom. Contudo, ao perceber certa palpitação no peito, diminuiu o ritmo e andava agora devagar. Olhava para os carros estacionados, ouvia o barulho daquela cidade fervilhante e constantemente barulhenta, e percebeu que os sons iam ficando distantes, como se já não fizessem parte do mundo que pisava. Ao invés do barulho de carros, pessoas, sirenes, ouvia cada vez mais alto, o som do  coração.
Ele, já havia chegado ao local do encontro. Não pediu café, embora tivesse vontade. Pediu água, pois conhecia do que se alimentava o comércio.Era homem atento e pensara ser gentil, deixando que ela decidisse o que gostaria de tomar, antes de impor-lhe a escolha. E se ela tivesse vontade de pedir vinho, ou suco? Naquela hora da tarde e, pelo que conhecia dela, tudo seria possível contanto que ele não fizesse a escolha primeiro. No final, ela pediria para ele escolher. Como oferecer-lhe vinho se estivesse tomando café? Ao ver o café, faria pedido igual só para acompanhá-lo, mesmo que estivesse pensando no vinho . Ele sabia como ela era. E tudo estaria então resumido num cafezinho. E ele não queria resumir fosse o que fosse, do que estava para acontecer.
Esperar, não era algo que fizesse com tranqüilidade. Não sabia preencher os espaços vazios com facilidade como faziam as mulheres que tinham sempre um leque de opções a seu alcance, além de uma mente sonhadora. Ele, não. Era homem que se habituara à objetividade. A vida o instigara a ser mais realizador do que dado a devaneios. Não tinha paciência ultimamente, nem para esperar que algumas pessoas chegassem ao fim do que começavam a dizer-lhe, talvez porque já adivinhasse o final, uma vez que conhecia a mesmice de tudo que lhe rodeava há anos. Com o tempo, sabia que ela também chegaria a ser tão conhecida e talvez tão previsível como tudo o mais. Rotina era uma coisa boa, algo confortável com o que podia lidar. Sair dela também seria bom, se representasse agregar algum valor a sua vida e desde que, o que conquistara para si, não fosse perdido. Ele preferia colecionar seus valores do que sonhos. Logo saberia e também deixaria claro, de uma vez por todas, o objetivo daquele encontro e ao que poderia levar.
Ela cometeu um erro. Prestou atenção ao seu coração e, ao fazê-lo, perdeu o ritmo do caminhar. O som parecia o retumbar de algo vivo que lhe saltaria pela boca, se ela a abrisse. Parou frente à vitrine. Engoliu em seco. Fingiu olhar os sapatos e tentou recuperar o controle. Respirou fundo. Pelo vidro pôde ver sua silhueta, salpicada por sapatos vermelhos, que pareciam pendurados nela,como os passos que ela poderia dar. Sentiu medo. Tal insegurança não era porque não se gostasse. Valia mais do que todos aqueles sapatos juntos, mas não estava acostumada com encontros. E há muito tempo não se expunha assim, como numa vitrine, para ser avaliada. Sentia medo que o próprio medo se tornasse tão grande, que a fizesse desistir.  
Desistir do que? De nada! Ela não queria nada a não ser apenas os passos que pudesse dar. Com companhia de outros passos,seria melhor. -"Só por hoje", lembrou e sorriu. Era uma frase usada pelos que querem aprender a caminhar felizes, um dia de cada vez. Que tudo fosse verdadeiro, fosse como fosse, e não machucasse demais. Mas que ela não fizesse papel de tola. A vendedora aproximou-se gentil. Que coisa! por que não lhe era permitido um tempo para ficar ali, só pensando na vida? Por que tudo se resumia apenas na compulsão de vender e comprar? Tenho algo que lhe interessa, e você, tem o valor equivalente para me dar? Me dê logo ou siga em frente! Era assim a vida. A vitrine era bonita,como ela se sentia por dentro, os sapatos eram lindos,como aquilo que ela sonhara um dia ter.
Voltou a caminhar. O coração sossegara um pouco, mas estava apreensiva. Segurança e  alegria foram-se. Quem sabe se, ao virar a esquina apenas para espiar, desse logo de cara com um largo sorriso dele na boca e no olhar, e seu medo pudesse então, desaparecer para sempre. Quem sabe seria melhor rodar nos calcanhares e sair depressa dali. Tinha apenas mais três passos para se decidir.
Crônica: Vera Alvarenga
Foto da vitrine de Crisscalçados.                                           

domingo, 11 de setembro de 2011

A alquimista.

Não era a primeira vez que ia ao quintal e ficava sòzinha com um silêncio que podia preencher como bem quisesse- ler, ouvir música, pensar. Estar sozinha assim não era sentir-se só,nem triste. Este era o tipo de solidão que possuía o silêncio de prata,como pensava, porque silêncio de ouro seria o que proporciona indescritível prazer a duas pessoas que, mesmo estando quietas, conseguem sentir-se incrivelmente unidas. Mas, quando no silêncio de cor prateada ela experimentava o prazer de estar consigo mesma e encontrar-se com o que habitava dentro de si, então era como o alquimista ou feiticeira que sabe como transformar prata em ouro. Antigamente era no banho,ou na cama quando todos já dormiam, ou num momento de ociosidade como este,que lhe aconteciam as idéias criativas.
Agora,filhos criados, afastada das artes que antes faziam parte ativa de sua vida, não precisava mais criar, e escrevia, ou lia. Ou então, lembrava com saudades de alguém, ou sonhava. Era dona de si e destes seus momentos.E como isto era bom! Podia até mesmo apenas respirar. Deitada num colchonete no chão, mãos postas em concha sôbre os olhos e depois no peito, apenas respirava. Assim, meditava. No movimento da respiração se deixava levar para dentro de si ou voava por sensações que depois não sabia como descrever em palavras.
Estes rápidos momentos traziam no final uma nostalgia,como se fizessem parte de uma despedida de algo bom.
O sol se punha às suas costas. Hoje ela sentara ali para um momento de leitura, mas logo percebeu que precisava escrever. Os pardais vinham cantar ao seu redor as últimas canções do dia. Andorinhas logo viriam agitadas, procurar seus ninhos no telhado. Mais alguns minutos e, ao olhar para o céu, veria os patos vindos do sul voando para a direção oposta. Como sabiam que deveriam voar naquela formação que desenhava duas imensas asas no céu? Asas iguais as que a levavam àquela quietude interna.
Tudo parecia tão natural e agradável naqueles momentos que ela sentia fazer parte do ritmo que pulsava na natureza ao seu redor, obedecendo ao tempo do instinto e não do relógio. Tudo parecia tão perfeito e calmo,que era até um pouco triste. Despedidas sempre o são. O sol já desaparecia atrás do sobrado do outro lado da rua. As maritacas que gritavam na amoreira aquietaram-se.
Então, ela pensou nele.Tudo só seria mais perfeito se ele viesse e lhe desse um beijo, como ela gostava de beijar quando sentia-se assim repleta de si ou daquela tranquilidade. Ele não veio. Talvez porque os homens não percebam o risco que é viver sempre a um passo de uma despedida. Talvez porque eles só percebam que a noite chegou quando alguém não acende a luz para eles.
Ah! mas ela percebia e tinha o jarro de seu coração, tantas vezes pronto para transbordar o que não podia caber só em si, mesmo às custas de saber que a cada dia, pode haver despedidas...e a cada beijo também.
Texto e fotos:Vera Alvarenga

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Você leu um destes livros?

 Os Embaixadores da Galáxia e Fábrica de Sonhos foram 2 livros meus que a Ed. Paulinas publicaram em 1987. Foram 4 e 5 edições de 2500 livros cada uma. Faz 24 anos isto e hoje recebi um email que me deixou sensibilizada e mais uma vez pensei em como devemos ser cuidadosos com aquilo que escrevemos para crianças.
  As crianças que leram meus livros devem ter agora por volta de 30 anos  ou pouco menos, a idade aproximada de meu filho mais novo.
 Os Embaixadores da Galáxia é a aventura de um garoto raptado por uma nave espacial. Nela, ele encontra os Embaixadores da galáxia que estão reunidos para o julgamento da Terra, torna-se amigo de uma garota e volta, como as outras crianças, para a terra,com uma missão importante, porém esquecido de sua aventura. Dei o nome de meu filho mais velho Rodrigo, ao personagem principal.
  O livro Fábrica de Sonhos conta sobre um outro menino que tinha pesadelos e numa noite é visitado por outro garoto, "Nosbór" o "avesso " de seu nome, e com ele entra em seu cérebro para compreender como são feitos os pesadelos. Ao personagem principal, dei o nome de Robson, meu filho do meio, porque ele na época estava tendo muitos pesadelos. O meu filho mais novo, Roberto, me ajudou a ilustrar mais um livro infantil, junto com seus colegas da escola.
  Bem, os livros estão esgotados na Editora, mas quem sabe um dia eu possa reeditá-los, continuando com outro projeto que tenho para editar livros ilustrados pelas crianças. Quero agradecer muito ao Alexandre Brito por seu carinho em me enviar email, e por suas palavras generosas. Fiquei muito feliz, pois para quem escreve principalmente para crianças, é delicioso saber que levou uma boa influência para aquele que leu. Gostei de saber de você, menino Alexandre ( hoje um homem,claro! rs...)Aqui vai o email do Alexandre:
 "Entrei no seu Blog!
Hoje estava tentando lembrar do primeiro livro que comprei... Era um feira de livros do colégio que eu estudava, quando eu ainda estava na 1ª série, ainda era um criança... Me deparei com a capa do livro "A fábrica de sonhos" Comprei-o, e desde daí, me tornei um apaixonado por livros... Ou seja, vc fez eu me apaixonar pela literatura, e graças a internet, tenho a oportunidade de agradecer por teres feito parte de minha história, mesmo que nas páginas de um livro já antigo...
Queria saber por onde anda este livro, já que o com o tempo, foi perdido ou deixado em algum lugar, e isso é uma "pena"
Abraços e bjus!
                    Alexandre Brito
 
  E VOCÊ, leu um destes livros? Mande notícias, vou gostar de saber.
  Beijos a todos.
  Vera Alvarenga.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O desejo ...

 O primeiro desejo no momento em que se vai concretizando é como o escravo que, libertado, corre com medo de ser ainda apanhado, antes de sentir o gosto da liberdade. E vai afoito e desenfreado, sôfrego e meio cego,sem destino certo, sem saber até onde pode ir. Vai como barco levado pelas ondas e abençoa a praia onde chegar. Embora cego, contudo, é desbravador de novas terras e delas traz o vírus com o qual, muitos ficam contaminados.
O outro desejo, o que vem do que é conhecido, falo daquele selecionado entre tudo o já por vezes experimentado, o que nos ensinou sobre ter o gosto apurado...deste, a gente quer tudo. Por saber o caminho, vai saboreando devagar e, mesmo assim, com cuidado,porque sabemos que agora, somos escravos da liberdade. E esta é para tudo, até para o que fomos buscar e, surpreendentemente, pode nos escapar no último momento.
O desejo daquilo que experimentamos uma vez ou muitas, e se foram muitas mais marcados ficamos, o desejo daquela experiência do dissolver-nos sem medo, do nos entregarmos à plenitude, este tem alvo certo, e traz em si tremenda contradição. Nos reconhece livres,mas nos leva a uma doce prisão!
A esta prisão ficamos presos por magia, a ela queremos retornar, como aquele que conhece o sabor de doce alimento, ou aquela que sedenta bebeu de fresca fonte. Somos escravos do que não tem nome, mas está na lembrança, na pele, no olhar. Ao lembrar dela, o desejo nasce e volta a arder. Como se no corpo ressurgisse e ardesse  a marca que ali foi tatuada para sempre. E todas as células do corpo guardam em si a memória. É a marca que trazem aqueles que já estiveram livres o bastante para provar do ritual mágico levado às últimas consequências, o que nem a todos é dado participar. Porque é preciso perseverança no tempo, empenho e extrema vontade ao mesmo tempo que, exige grande desprendimento da vaidade quanto ao que se quer realizar.Muitos se iludem nesta questão, e talvez seja melhor assim, pois quem sabe onde chegou, torna-se prisioneiro, como aquele que ouve o canto da sereia ou a mulher que sonha jamais envelhecer. É o querer doar-se inteiro e receber tanto, que se completa. É de fato, uma contradição. No mesmo instante em que não se pode exigir, é que se tem a harmonia e o ritmo perfeitamente combinado, como se fosse ato, durante muito tempo,ensaiado. E ensaiar é o melhor...pode levar anos e anos de prazer.
E, apesar disto tudo, que nos lembra que também e ainda somos corpo e emoção, a razão quer em vão, nos convencer de que, em um momento dado, melhor seria ficar só na lembrança, ou mesmo esquecer, do que desejar de novo e de novo, mergulhar nas águas cristalinas do ser nada e tudo, a que nos leva o ato de amar.
Texto: Vera Alvarenga   foto: retirada do google e modificada.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A música tem magia...

 Quando olhei para a pauta e vi aquela palavra enorme e estranha colocada ali no meio da música, não acreditei que daria certo! Simplesmente não acreditei! Eu nem me lembrava da melodia, mas a palavra parecia não combinar com uma música de Natal. Lá estava ela: "Pro-pi-cia-tó-rio"... Não haverá um erro aqui na tradução? Não, não havia!
Nosso jovem professor, Rogério, começou a nos ensaiar separadamente por vozes. Frase por frase, repetíamos. Primeiro as sopranos, depois contraltos onde me incluo,e logo os tenores e então os baixos.
 Isto me fez lembrar as peças dos meus mosaicos, quando eu as olhava sobre a mesa antes de iniciar  o trabalho, e depois, a maravilhosa sensação de vê-las unidas harmoniosamente, formando com esta união um resultado maravilhoso.
Foi assim que ficou, mesmo neste primeiro ensaio da Cantata de Natal que estamos preparando. É um coral pequeno que está se formando agora, em Votorantim, dentro do projeto cultural. Temos ali desde adolescentes até os mais velhos como eu. Muitos de nós, inseguros e tímidos, mas o professor, sempre elogiando no final de cada parte do ensaio,e nos dizendo animado:
- Perfeito! Está maravilhoso!
E assim, nós vamos seguindo, acreditando que podemos encantar com nossas vozes. Com certeza, encantamos nossa própria alma, derretemos o gelo se havia algum que restava deste inverno, aquecemos nossos corações primeiro e antes de qualquer outro, e o momento se torna mágico. Para todos nós! Nos primeiros ensaios de qualquer música, precisamos ficar muito atentos ao que nosso naipe deve cantar, para não misturarmos as vozes. Se ao cantar, nos distrairmos um pouco para também ouvir o que estamos cantando como um todo, além do prazer de cantar...nos deixamos levar... e nos emocionamos! Foi o que aconteceu comigo, num momento em que me distraí da preocupação da voz das contraltos. Por um segundo pude ouvir o todo junto comigo, as vozes diferentes, e precisei segurar o choro, o som ficou engasgado na minha garganta...estava lindo demais.
Como é mágica a música! Como é bom cantar.
Coloco aqui um vídeo para que os amigos se emocionem comigo. Nosso coral cantará a versão em portugues( e nela, aquela palavra incomum aparece,mas soa lindamente dentro da música). Nosso querido regente sabe como fazer pequenos milagres... rs.....
A emoção que senti, mesmo reconhecendo que somos iniciantes, foi a mesma do que sentimos ao ver este vídeo...
Foto e texto:Vera Alvarenga

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