sábado, 10 de março de 2012

Era uma vez...quando as mulheres não choravam...

 Não muito distante daqui,havia uma princesa que, desde menina aprendera a não chorar. E cresceu assim, corajosa. Contudo, se emocionava com o sofrimento de outros,com as injustiças, pois era sensível. Para ajudar as pessoas, resolveu criar um jardim e nele vivia a maior parte do tempo, cultivando flores que pudesse levar por onde andasse.
Casou, teve filhos e o tempo passou. E, neste tempo, houve momentos que sentia vontade de chorar mas, seguindo o exemplo da rainha e, como suas lágrimas continuavam proibidas, encontrou maneiras para livrar-se delas. Uma delas era através de sua arte, onde colocava toda sua emoção.
Quando o tempo veio pratear seus cabelos,suas lágrimas tornaram-se tão raras que também seus olhos perderam o brilho, e tudo o que via no jardim parecia seco e sem vida. Um dia, ao ver um lindo pássaro voar para longe, saiu dos limites do castelo, e o seguiu até a beira do lago. Mas lá fora, as terras dos campos e jardins que antes floriam e eram férteis,também estavam ressecadas, com fendas profundas. Encontrou dois homens pelo caminho. E perguntou-lhes:
- O que foi feito do verde e da vida que brotava destas terras?
Um deles, o que chorava porque perdera pessoas que amava, beijou-lhe a mão, contou de sua tristeza e depois se afastou. O outro, lhe respondeu:
- Dizem que a rainha mãe, há muito tempo,em troca de uma vida mais feliz, deu a alma da filha ao diabo, prometendo-lhe que ela jamais choraria. E as lágrimas foram proibidas. Também pudera! Quem de nós aguenta ver uma mulher chorar? Caçoou o homem. E continuou a contar para aquela mulher o que sucedera, sem desconfiar que ela era a dona do castelo. E aconteceu, minha senhora, que outras mulheres seguiram o exemplo, o que foi ótimo, mas desconfio que a terra secou junto com as mulheres.
Então, a mulher que foi princesa, depois esposa de um rei, mãe e agora era uma rainha velha, afastou-se e foi até a beira do lago. Com seus pés enfiados na poeira da terra ressequida, olhou para o galho de uma árvore onde viu o pássaro e, por um momento, pensou em como seria bom, voar com ele para longe dali.
Logo, olhou para a água e viu nela refletidos seu rosto e seus cabelos prateados. E assim, sem mais nem menos, chorou. E chorou, chorou...e chorou muito ainda, antes de ir embora.
Ao sair ela sabia que deixava ali, junto com suas lágrimas, parte de si, uma certa ingenuidade que talvez há muito, não lhe cabia mais ter. Ela tinha finalmente, a consciência do peso de ser uma rainha.
Com os olhos mais úmidos, a visão mais nítida, com pena mas sem amargura, via o que era para ver, e foi para casa. Levava no coração  poucas certezas, algumas lembranças boas e más, nenhuma expectativa, mas sabia que agora era livre para chorar, sempre que quisesse. Foi embora, sem olhar para trás, e por isto não viu que, ao redor da marca de suas pegadas, onde suas lágrimas molharam a terra e a transformaram em lama fértil, brotos verdes começaram a crescer...
Fotos retiradas do Google
Texto: Vera Alvarenga

   

16 comentários:

  1. Vera, que LINDOOOOO.... a cada frase eu pude ver a cena! A mensagem é tão bonita, vou ler para minha filha que certamente vai gostar.

    beijos e parabens!

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  2. Vera,

    Laura leu e gostou muito. Aproveitei para mostrar o livro que vc deu um dia a ela, para que identificasse a autora deste conto.

    Beijos

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    1. Sissy, muito obrigada! Você não sabe a alegria que me deu,por ter mostrado para a Laura porque hoje sei que nossas filhas e netas tem que chorar, no tempo certo, como sempre achei que meus filhos tinham de chorar, se tivessem vontade! Eu, fui criada de um modo diferente, venho de uma família onde as mulheres eram "fortes"! rs.. A sociedade era muito dura com a mulher. Eu também gostei muito desta minha história, talvez porque tenha me inspirado em algo que mexeu muito comigo ao ler o livro excelente: "Mulheres que correm com os lobos". Beijos pra você e Laura.

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  3. Olá Vera, que linda mensagem você trouxe neste conto. Aprendemos tanto a reprimir as emoções que com isto esquecemos de olhar ao redor e ver o quanto isto pode afetar todo o nosso reino!
    Precisamos sempre ter a coragem e a força de externar nossas emoções e se chorar é uma destas formas, então deixemos que nossas lágrimas reguem as sementes de nosso caminhar!
    Beijo no coração

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    1. é isto aí,Valéria! Mais do que ver a realidade como ela é, é importante ver como ela está nos afetando e então não esconder as emoções de nós mesmas. E se forem lágrimas, que seja! e que o mundo assimile a idéia de que chorar sinceramente não é fraqueza que deve ser evitada ( porque é sim, sinal de fragilidade e humanidade),mas um dos passos para o recomeçar, renovar ou melhorar algo que não estava bom. ( e vale também para os homens).
      Beijos, querida e bom domingo!

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  4. Chorar faz isto mesmo. Brotar em nossa alma, as vezes tão cansada, um banho para regar as forças. A força do que fomos, seremos ou viveremos. Apenas reforço.

    Linda e comovente história, minha amiga escritora.

    Bjinhos!

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  5. Olá Valéria, kit, abelhinha!.rs...ver as coisas que não estão bem,chorar por elas, é bom sim. Eu seguia demais numa atitude positiva diante de tudo,coração de artista voltado ao lado belo das coisas(Vai ver, por isto o oftalmo me recomendou colírios, os olhos estavam secos!), mas as vezes a gente tem mesmo é de pisar fundo na lama. Depois, chora, lava a alma e sai, protegida, de novo pra fazer o que tem de fazer e ser o que tem de ser.
    Tenho acompanhado seu trabalho no Amores. Muito bom, amiga!Parabéns a você e equipe.
    Beijos

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  6. Amei este conto.
    Assim que o comecei a ler deu-me o palpite que Mulheres que correm com os lobos o tinha inspirado.
    Este livro mexe muito com a gente.
    Eu, como boa canceriana, sempre fui chorona e ainda sou. Choro até vendo propaganda na TV. rsrs
    As lágrimas, no meu entender, lavam a alma e ... quiçá a Mãe Terra também, como no seu lindo conto.
    Beijos

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    1. Como disse para Sissy, ele me inspirou sim e porque nele vi tanto que sei. Também me emociono com filmes, com os outros,com tudo o que é emocionante, afinal tenho lua em peixes e netuno lá no meio céu..rs..mas não tenho o hábito de chorar por mim. Lembra o que você me disse uma vez, Atena? Não aprendemos a amar a nós mesmas e eu precisei estar com minha norinha, apoiando-a numa fase em que ela precisava de apoio para eu olhar com emoção para a jovem mãe/mulher que fui outrora.
      A vida nos dá oportunidades de nos resgatar, até através da leitura de bons livros, ou de pássaros que nos vem trazer um canto diferente do que estamos acostumadas!
      Beijos e obrigada.

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Vera querida, esse contou me lembrou tanto Ruben Alves e suas belíssimas analogias.
    Gostei mto!
    Bjos

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    1. Obrigada, Marcela! Queria que recebesse meu carinhoso beijo. E sabe, comprei há pouco um livro do Rubem alves: Ostra feliz não faz pérolas, que logo vou começar a ler.

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  9. Querida vera

    Que lindo seu conto!

    Ainda bem que as mulheres aprenderam a mostrar suas emoçoes,não escondendo suas lagrimas...

    beijos
    joana mendes

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  10. Claro que é bom sermos fortes, não é Joana? Mas quem disse que a gente não pode encarar as emoções, chorar, e depois sair caminhando para continuarmos a plantar nossas sementes? Obrigada por vir e grande beijo.

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  11. até q é bonitinho o texto vovó,mas prefiro q minha alma continuasse sendo do diabo(se ele existisse,claro)do que viver chorando,pois os homens se divertem em ver mulheres chorando ¬¬

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    1. Você tem razão em duas coisas: claro que não é bom "viver chorando"! a gente tem de arregaçar as mangas e fazer o que tem de fazer para melhorar a situação. E sim, deve haver muitos homens que se fortalecem vendo o sofrimento de outros, ou vendo uma mulher chorar, mas com certeza estes não valem a pena e para eles, é melhor mesmo não derramar nenhuma lágrima...a menos que... a gente precise mesmo chorar! Então, danem-se eles, e choremos nós, se assim quisermos!

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