segunda-feira, 11 de abril de 2011

Cartas ao Léo - Desabafo- Parte I

 Cartas ao Léo...  ( Parte I)
     Vivian começou a escrever o que seria um email, mas tornou-se uma carta e depois, mais que isto, um desabafo, como se ela pudesse lhe dizer tudo o que sentiu nos últimos meses, como se estivessem frente a frente, e ela pudesse ser ouvida...
     Lembra o que a gente sentia, coisa rara que por ser rara não se desperdiça?
Que incentivava, abrandava a alma quando necessário,tudo porque a gente parecia se compreender de fato,nem sei como, nem por que? Simplesmente acontecia, lembra? Sem premeditação. Não era o tempo que importava, mas o prazer de descobrir que nossa presença na vida uma da outra, nos fazia bem e que, por alguma razão que não explico, ouvíamos uma da outra, o que estávamos talvez, sedentas de ouvir.
     Algumas vezes você me escreveu: - “Mais uma vez me diz palavras que eu precisava ouvir.”
     Engraçado isto, porque não me julgava capaz de lhe dizer algo que fosse suficientemente novo para você. Percebo agora - o que lhe dizia, nem sempre era tudo o que gostaria de poder dizer contudo, o que me motivava era respeito e querer bem.
     Falar com você, também trazia descobertas sobre mim, minhas possibilidades e, por isto, me fortalecia. Sentia meu coração transbordar gratidão e, para retribuir, queria lhe dar o melhor de mim, mas não sabia como – eu a incentivava a desejar sentir a vida novamente, pois me afligia ver como você estava entregue à sua tristeza, como eu estava entregue à minha. Sentir a vida novamente era algo que eu mesma começava a experimentar, depois de começar a reconhecer você - queria isto também para você . Então lhe disse: - aproveite a vida. E você se foi!
     Mesmo com poucas palavras, nos falávamos de coração a coração, entretanto o meu, não ouviu sua despedida . Quando nos acostumamos com a amizade e presença de outra pessoa na nossa vida, esperamos, ainda que este rápido momento do encontro, com alegria, porque fica fazendo parte, e é preciso que nosso coração seja preparado para a despedida, ou tudo parecerá o golpe inexoravelmente frio daquela senhora, que quando vem, não avisa, apenas golpeia e mata! Eu já perdi um amigo querido assim, levado por ela. Não queria perder outra pessoa. Quem ou o que, teria arrancado de mim, sua presença?
     Depois de um tempo, senti raiva de você ou do que quer que houvesse nos aproximado – até com Deus, tive uma grande discussão! Ele tentou me dizer que há pessoas que passam em nossa vida para que deste encontro, ambas saiam melhores. Eu não queria ser uma pessoa melhor. Finalmente não queria mais ser perfeita. Apenas queria ser eu mesma, e ainda assim, encontrar significado! Deparar-me com alguém que pudesse me aceitar, ao mesmo tempo que eu a ela, era um sinal dos deuses, um banquete no Olimpo!
     Já fiquei com meus olhos aqui marejados, muitas vezes se quer saber, por me perguntar, onde estaria agora, tudo isto que parecíamos sentir, dentro deste silêncio que eu não compreendia. Fiz um jogo cruel comigo mesma. Respondia perguntas que não pude fazer a ninguém. Me perguntei onde eu havia errado, o que estaria acontecendo a você, julguei que eu mesma estivesse sendo egoísta, me anestesiei, desejei sair sozinha, de dentro da tristeza...Compreendi duas coisas:
   - Uma, é que não há como sair dela! Quando alguém parte, sempre deixará o outro triste, porque o que tem valor, não pode ser substituído, é único e deixa saudades. Me nego viver como se fizesse de conta que os sentimentos não existam, e por isto, pago o preço.
   - A outra, é que por anos tive esta mesma atitude – não esperava ter direito a nada especial, e não queria demonstrar o quanto, às vezes, alguém podia me magoar, pois pensava que não era certo cobrar atenção de quem quer que fosse, ou minha amizade pareceria ter sido apenas uma moeda para trocar algo, que eu também precisava. E isto não era justo, pois sei que era responsavelmente sincera, e que nós todos, seres humanos, desejamos ser reconhecidos e amados, seja fraternalmente ou de outras formas. Se é uma troca, é justa!
     Bem sei daquela história de que, se nos decepcionamos com alguém, é porque esperamos o que esta pessoa não podia nos dar, mas crer nisto também é uma forma de acomodar-se.    
     Se  não tivesse me dito que nossa amizade era importante, que assim como eu por seus próprios motivos você também sofrera, que eu a ajudava a ver a vida de outra maneira, que eu era insubstituível, não teria me sentido especial, não teria me apegado a você, não teria desejado lhe dar meu melhor reconhecimento, porque ouvir isto fez uma enorme diferença em minha vida e, para mim, tudo tornou-se especial. Não teria acreditado que, com minha forma simples de ser, poderia levar um pouco de luz e alegria para você e não teria percebido o quanto você iluminou meus dias!
     Eu continuaria na sombra da descoberta recente que havia feito, de como alguns movimentos meus tinham se revelado vãos e impotentes, frente a uma muralha em um trecho do meu caminho, que eu não tinha conseguido transpor.  E você, teria continuado com suas próprias sombras, até encontrar por si mesma, uma luz.
     Se você estivesse aqui agora, estaria me estranhando, eu sei, porque estou me estranhando também, e muito, mas é assim. Tenho que finalmente admitir que senti raiva, despeito, tristeza, impotência, diante de um silêncio que eu não sabia o que significava e não combinava com nossa confessada amizade. 
     O pior, sentia-me culpada por estes sentimentos e pensava que talvez, você estivesse deprimida demais para se comunicar. Então, mesmo entre o consolo desta explicação que eu mesma me dava, preferia pensar que você estava bem e que apenas tinha ido embora....assim, simplesmente, sem mais, nem menos. Esta minha nobre tentativa me fez perceber como todos nós somos carentes, e o que se passou comigo aconteceu ou acontecerá com você fatalmente um dia, pois no palco da vida as personagens mudam, trocamos papéis, mas somos todos humanos. Todos sentiremos falta de quem queremos bem, seja porque nos trouxe luz, seja porque lhe emprestamos um pouco da nossa, seja porque juntos, funcionávamos como um amplificador  do que tínhamos de bom. O ser humano é muito solitário, mas também solidário.
     Sei que sentir-me vulnerável e culpada é algo que aprendi em minha vida, uma fraqueza minha. Sou capaz também de aceitar as suas. Queria tanto que você rompesse este silêncio, me dissesse que não agiu assim porque nada represento, ou que me viesse dizer qualquer coisa, mesmo que fosse, adeus! 
     Embora eu preferisse que não, acho que aprenderia a lidar com um adeus, mas não sei lidar com este silêncio sem despedida. É morte, para mim, e eu temo a morte.
     O ser humano é medroso. Posso compreender isto, já que compreendo meu próprio medo. 
     Há um alarme dentro do ser humano, eu acho, que desperta quando pressente o perigo da entrega a algo maior e finalmente verdadeiro, um amor, uma amizade, um real querer bem – um ato não ensaiado onde os sentimentos são ingênuos e intensos, onde ele não precisa ler o roteiro porque a cena está além da tragédia comum e igual, onde o mais importante não seja o preço do ingresso.
      O ser humano, diante do improviso, nesta cena que cobra de si uma performance genuína, sente um medo sincero de dissolver-se no próprio ato de fé em sua própria interpretação. Eu, que sou tão medrosa, também tive medo, mas não fugi. Eu também não estava habituada com a possibilidade de viver uma amizade assim sincera, fruto de ingênua confiança, mas não a deixei num silêncio vazio, sabendo do carinho que existia entre nós.
     O ser humano teme falar, ou teme sentir? Teme experimentar o que depois sentirá falta? O ser humano, teme os sentimentos contraditórios ou inesperados, que estavam fora do script, como teme à morte!
     Então, ele age como se nada ali houvesse, finge que ninguém lhe deu a “deixa” e por conseqüência, finge não fazer parte da trama. Aquele alarme toca dentro dele, tão alto, que o entontece, fica desorientado, perde o rumo, confunde o caminho, os personagens, o verdadeiro com a imagem, e acaba desistindo, como se não merecesse a felicidade de ver-se numa atuação em meio a sentimentos verdadeiros! 
     Não importa se, esperando por ele,  há papéis  mais importantes em outros palcos! Ele só pode estar em um de cada vez, e para cada circunstância é chamado a ser o si mesmo, sob o ator de cada cena, mesmo que interprete vários personagens em peças diferentes.  No nosso palco, nosso ato foi interrompido, embora as cortinas estejam suspensas porque nenhum de nós as fechou.  
     Sim, talvez seja menos perigoso não arriscar, não esperar nada do outro, nem gostar muito dele, fazer de conta que somos bonzinhos e não sonhamos a menos que nos permitam, aqueles que já nos acostumaram a eles, como se fôssemos marionetes, sob o jugo de alguém que está por trás da cena.  Penso nesta contemporânea visão de vida, que nos quer convencer que não temos o direito a esperar  retribuição, ou participação, ou feedback – isto que nada mais seria do que atitudes naturais e coerentes com o que se diz e sente – isto que hoje, as pessoas querem transformar em um pecado imperdoável.
     É tão mais fácil assim! Como você ousa me cobrar, por que esperar algo de mim, se diz ser minha amiga? 
    Ora, como se nós pudéssemos ser felizes sem esperar que seja verdade, aquilo que estamos vendo em nossa frente! Já nos faziam sofrer desta loucura, quando éramos crianças e nos diziam que estávamos enganados quando percebíamos algo diferente do que as palavras ditas, ou quando nos confundíamos com as incoerências.... 
     Hoje há uma cumplicidade às avessas : para nos fazer crer que estivemos acreditando anos e anos, ou meses, no que não passava de ilusão apenas nossa, da qual o outro não tem participação. Será que a grande ilusão, não seria ainda a de querermos fazer de conta que não somos co-autores?
     Ah, mas se você comete este pecado de iludir-se, de me dizer que acreditou em tudo,nas aparências, nos sinais, então,como é pecado, eu posso castigá-la. Finalmente posso fugir do sentir, do que nos assusta a todos e, ao invés de lhe dar a mão e nos apoiarmos nesta descoberta ou aceitação, do que podemos ou não fazer com a verdade dos nossos sentimentos, eu posso castigá-la por crer em mim. Finalmente eu posso desistir daquilo que eu mesmo comecei a vislumbrar como algo bom. Porque foi você, que ingênuamente ou não ( melhor até que eu não acredite em sua ingenuidade!), cometeu o pecado de colocar tudo por terra, criando uma ilusão.
     Então, você me perguntaria...O que eu queria, afinal? Prendê-la a mim? Não, eu amo sentir a liberdade de permanecer por convicção e de sentir prazer no que acredito que seja bom realizar.
      Fazer de você, responsável por meus sentimentos? Não ! eu queria apenas, que você tivesse se despedido de mim, que não saísse de cena como se eu não existisse ali, pois que esta, você sabe, é minha única  ferida antiga. Fazendo de conta que nossa amizade existe apenas quando você acende as luzes do palco, você me magoou. Acho que era esta a lição que eu tinha de aprender - aceitar o quanto alguma coisa ou alguém pode me magoar. Agora já sei. Só assim, a gente sabe o que fazer depois.
     Eu só queria que você mesma acreditasse no que me diz, e escolhesse ser responsável por cuidar, junto comigo, do que me trouxe em suas mãos, quando veio a me seguir, por um caminho e nos encontramos. Lembra? Você tinha nas mãos uma mágica semente, mas era algo tão verdadeiro, como um imenso e real pé de feijão. 

final na parte II- quando Vivian fala do pé de feijão e de Léo.     

5 comentários:

  1. Vera:
    Nem sei o que dizer. Seu texto está tocante demais. Está um verdadeiro compêndio sobre humanidade, na sua melhor e mais exata definição.
    Você conseguiu colocar uma gama incrível dos sentimentos que se fazem presentes nas relações humanas. Parabéns!!!!
    Acredito que qualquer um vai se identificar nele, pelo menos em algum momento. Eu o fiz.
    Aaaadorei.
    grande beijo

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  2. Você fala de amizade, da distancia dos sentimentos, muitas vezes não entendidos. Mas, acredito, tudo culpa das letras que não tem som. Então, querida, uma ilusão, não pode ser pecado. Ela alimenta um sonho. Assim como o pé de feijão que nos leva a um castelo do gigante.
    E pra encurtar esta distancia, que nada diz, mas tudo conta, nada melhor do que o tempo. O senhor de todas as verdade!

    bjs

    Valéria
    - ansiosa pela segunda parte -

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  3. Olá Atena!
    Fiquei feliz com seu comentário, porque acredito sim, que em algum momento alguns de nós, homens ou mulheres, podemos nos identificar com esta personagem.
    Obrigada, você me animou a continuar.
    Beijos

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  4. Olá Kit!
    Estou de acordo com você! Uma ilusão, ainda mais como esta, não pode ser pecado. Esta personagem do livro, no entanto, fala de tantos sentimentos sentidos que relembra talvez uma ou outra emoção que já sentimos. Quem não se identifica um pouquinho com ela, seja homem ou mulher? Quem não quer ser reconhecido, ouvido?
    Se ela puder tocar alguns, meu livro terá o sucesso que quero, quando eu o publicar.
    Ela é bem parecida comigo - sempre a alimentar seu sonho( embora eu viva o presente e seja alguém que não gosta de estar sob as luzes do palco..rs....)
    Ah, por falar em som das letras...estive numa aula de canto hoje, para recuperar minha voz...simbólico, não é mesmo?
    Beijos,Vera.
    Beijos e obrigada!

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  5. Vera, está muito bom.

    Flui, num lindo desfiar de emoções e pensamentos carregados com o que há de mais dolorido em nossas almas.

    Uma tentativa desesperada de desatar um nó, que é tão persistente.

    Muito bom mesmo.

    Abraços

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